31 de mar de 2012

Eram pardos, todos nus


Para explicar-me perante a platéia: F.K.=franz kafka, C.&S.=cruz e sousa, G.S.=gregor samsa. O resto não tem explicação






Retisente

Dentro da cabeça
uma teima com
o mundo

uma cisma
um cisma
mas que contudo


Penélope

SEM PRESSA
O PRESO
ESPERA

agora na praça
a moça cantarola
uma música fina
de espreitar grades

SEM ESPERA
O PRESO
PRESSA

e a música fiando o tempo



F.K.
C.&S.
G.S.

Tem dias que acordo tão frágil
sem pálpebra nem audição

formas negras contra o céu

espilo os espinhos de gelo
dos pés e das pernas
e sento no escuro encosto
de minha cama
sem tórax
sem membros
sem pênis
sem voz

uma cabeça oca que flutua
tremendo como a chama de uma vela
sem fogo ou gordura
com um lampejo só
piscando
nas vagas orbes
do crânio
dissolvendo-se
em



milhas

casais copulando em casas
corações que se avizinham
migalhas divididas
em milharais dilatantes

meros esmeros
que se cuidam
se amparam
e aparam

gugus e gagás
alimentados na boca
vovós e babás
amassando sopas

todos atados
amando
tocando feridas
tateando afagos
suspiros mútuos

rodas de
ciranda
macas e
merendas

mães
e mãos
irmãos
imãs
cães com cãs
em casas-cais
pães compartilhados
e mesmo os filhos levados:
descansem pais



um ano passa
em questão
de segundos



tenho escamas
cúmulos
tantos quereres
que insultos
inserem
pulsos onde
nada espero



gotas tocando piano
su



um pra quê
imenso
mal cabendo
no corpo



couro

infectado pelo afeto
começo a estar com outro

outro ferido
outra ferida

encara
cara
couro



Hiato

E como tudo se
transforma,
um átomo na
aparência e
todos aparentemente
mudam

transtorno os
produtos
quando visto
outras embalagens

talvez os átomos
se expandam
talvez implodam
e descasquem a névoa
em que nos embebemos

para os dias
leitosos
gotas do meu sangue
que espirram contra mim.
e mancham
a marcha amorfa
dos dias



milhares

milhares de milagres
empacam meu pessimismo

empesteam
meu abismo

arruínam
meus pesares



Há um passo

Disto um verbo
Digo um passo
fracos fracassos
passam perto
tão perto
tão gastos
que fazem fatos
e todos meus
aflitos fetos



herda

Terminalmente vivo
Sr. Cláudio escreve
seu testamento:

até breve
deixo tudo à caridade
doe a quem doer

os parentes condoídos
ausentaram
as festividades



Pero Vaz

nenhum
cobertor
aos
descobertos



Jaz um jazz
no beco escuro
Tanto faz
o beco é surdo











Inté